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você não quer um arsenal nuclear brasileiro, na verdade

Publicado em 11 de novembro de 2026


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Dissuasão Automágica

armas nucleares ocupam uma posição interessante no nosso imaginário coletivo, como um certificado incondicional de independência e autonomia. um país com armas nucleares é, na nossa concepção folk, imune. a ideia é que o custo de ameaçar ação militar contra uma potência nuclear é impagável, algo que nenhum player racional estaria disposto a fazer. é a magia da Dissuasão!

a República Popular Democrática da Coreia conduziu seu primeiro teste nuclear de sucesso em 2006. o que exatamente está sendo impedido pela existência desse arsenal? uma tentativa de reunificação partindo do governo sul-coreano? a península coreana não está em conflito ativo hoje pelo mesmo motivo que não esteve em conflito ativo nas últimas décadas: em 1953, foi estabelecida dissuasão convencional e ela se mantém desde então. nenhum governo envolvido acredita que tem os meios convencionais de tomar e manter todo o território necessário a um custo razoável.

perceba: se o arsenal nuclear norte-coreano fosse o fator pivotal para o estabelecimento de dissuasão e ele só deu os primeiros passos nos anos 2000, teríamos visto uma deflagração do conflito antes! que tal nos anos 90, durante a fome e a crise econômica que assolaram o país após o colapso da União Soviética? não vimos porque dissuasão foi estabelecida nos anos 50, convencionalmente. perceba também que isso não nos impede de reconhecer o óbvio: o arsenal nuclear norte-coreano aprofunda o status quo ao aumentar o custo esperado de uma tentativa de alterá-lo.

afinal, o arsenal nuclear paquistanês está dissuadindo quem de fazer o quê? a Índia, de tentar mudar o status quo na Caxemira. Dissuasão é estabelecida contra atores específicos, a respeito de atos específicos. o arsenal israelense não impediu o governo iraniano de lançar seguidos ataques de mísseis balísticos. quantas guerras os EUA perderam nos últimos 50 anos? a União Soviética saiu do Afeganistão. veja, as Forças Armadas da Ucrânia chegaram a ocupar uma área considerável do Oblast de Kursk entre 2024 e 2025. uma potência nuclear teve sua integridade territorial violada por um país sem arsenal nuclear próprio!

o que exatamente uma cratera fumegante ocupando o que antes era Hanoi, Lahore, Kyiv ou Cabul iria conquistar? o que uma arma nuclear de fato faz? a menos que um certo governo esteja verdadeiramente disposto a chantagear um estado sem arsenal nuclear com a ameaça de turbogenocídio, a única finalidade de armas nucleares é servir como uma promessa de retribuição de morte em massa contra outras potências nucleares ameaçando morte em massa, a tal Destruição Mútua Assegurada (MAD). é mais adequado conceitualizar armas nucleares não como uma família de munições com efeitos não-convencionais, mas sim como uma capacidade cerimonial: uma pilha de recursos que uma pretensa grande potência incinera para demonstrar o que está ao seu alcance. uma pavonada!

O Gradiente de Capacidade Nuclear

a título de argumento, vamos supor que temos o objetivo nacional de fazer como o proverbial pássaro formoso. vamos construir a capacidade de cometer turbogenocídio! ter uma ogiva é um primeiro passo. agora precisamos desenvolver veículos de entrega e operar uma força nuclear. em uma aproximação de primeira ordem, essa empreitada é materializada em uma organização ou formação militar1, mas os uniformizados operando e mantendo o equipamento são só a ponta de algo mais profundo. por trás dos panos há um sistema de sistemas: burocracias, personalidades, instituições de educação, centros de treinamento, instalações e processos industriais, acordos comerciais, consensos/dissensos na opinião pública, conhecimentos tácitos, etc…

essa não é uma empreitada simples, e o custo de oportunidade é tremendo. cada pessoa altamente escolarizada empregada no programa nuclear, produzindo ogivas, é uma mente a menos trabalhando em problemas concretos. objetivos abstratos e distantes como “soberania” só podem ser alcançados pagando preços muito reais e tangíveis. e não estamos em uma realidade de videogame, com uma tech tree e sucesso garantido ao final da empreitada. qualquer pessoa com um vago contato com técnicas de gerenciamento de projeto conhece o conceito de risco técnico. podemos muito bem passar anos fazendo enormes sacrifícios coletivos, jogando talentos e energia no problema, apenas para perceber que precisamos pôr ainda mais lenha na fogueira.

vamos continuar esticando a imaginação e supor que Governo Federal do Brasil tenha, em algum futuro não-tão-distante, feito o impossível. conseguimos manter uma empreitada nacional complexa e custosa, atravessando vários governos. jogamos um caminhão de dinheiro no problema, treinamos dezenas de milhares de engenheiros, cientistas, técnicos. compramos as centrífugas, sensores, balanças, tornos, guindastes, ferramentas e mais uma infinidade de equipamentos de todos os tamanhos e preços. importamos centenas de estrangeiros, ex-funcionários de empresas que participam da cadeia de valor nas já estabelecidas indústrias nucleares do Canadá, Bélgica, França e China. reativamos o Campo Brigadeiro Velloso na Serra do Cachimbo e passamos anos conduzindo testes até chegar a um desenho final para a primeira Arma Nuclear Brasileira. a linha de produção existe e produzimos 10-20 ogivas por ano. isso tudo sem virar um pária internacional, de algum jeito.

Jargão:

Mônada, Díade, Tríade: arsenal nuclear composto de uma, duas ou três pernas, i.e. famílias independentes de veículos de entrega. as pernas canônicas são mísseis balísticos terrestres, bombardeiros e submarinos lançadores de mísseis balísticos.

First strike: ataque nuclear que visa destruir o arsenal adversário antes que ele possa ser empregado, ou a cadeia de comando que viabiliza seu emprego.

Second strike: retaliação a um first strike.

Rendimento: energia liberada pela detonação de uma ogiva, medida em quantidades equivalentes de TNT: quilotons, megatons. ogivas táticas têm baixo rendimento e uso no campo de batalha; estratégicas, alto rendimento e alvos de valor nacional.

Guarda-chuva nuclear: compromisso de uma potência nuclear de retaliar ataques contra um aliado como se fossem contra si.

de que maneiras esse arsenal pode ser empregado? quais são os custos e payoffs associados a cada emprego? as respostas para essas perguntas são insumos elementares para o desenho de uma Doutrina Nuclear. um arsenal nuclear pode assumir várias formas e tamanhos. a escolha de qual configuração perseguir decorre diretamente de decisões como:

  • que atores queremos dissuadir?
  • quantos recursos estamos dispostos a sacrificar nessa empreitada?
  • quão resiliente deve ser nosso complexo nuclear? temos a capacidade de retaliar um ataque nuclear ou estamos presos a um first strike em que nosso arsenal é do tipo usar-ou-perder?
  • quão flexível é nosso complexo nuclear? que veículos de entrega temos? qual a variedade de tamanhos de ogiva nesse arsenal?

essas e outras decisões, quando acumuladas, implicam a existência de um gradiente de capacidades: do menos ao mais sofisticado. a primeira região desse degradê que podemos ocupar é uma mônada nuclear composta de mísseis balísticos de médio alcance (2000-2500km). com isso é possível pôr qualquer capital da América do Sul na mira, de dentro do território nacional. a incógnita de quanto dinheiro precisaria ser gasto, todo ano, por anos a fio, para construir essa capacidade é de grande interesse. não temos como dar uma estimativa satisfatória agora, então vamos chamá-la de 1 Programa Nuclear Mínimo Viável (PNMV) por enquanto. o que o leitor acha que o estado brasileiro ganharia, no palco internacional, com o investimento de 1 PNMV por ano em uma mônada desse tipo?

por algo na faixa de 1.5 PNMV, passamos a ter uma díade nuclear mínima viável. desenhamos um míssil de cruzeiro com um alcance de ~1000km, uma versão miniaturizada e de baixo rendimento da ogiva equipada nos mísseis balísticos, e a FAB adiciona um esquadrão de caças-bombardeiros, responsáveis pela operação desses mísseis. nesse cenário, podemos demonstrar capacidades nucleares a um baixo custo - uma interpretação brasileira do conceito de tiro nuclear de advertência da doutrina francesa. repito a pergunta: o que ganhamos com essa capacidade?

ao custo de 2-4 PNMVs, está ao nosso alcance desenvolver um programa espacial sério. o Centro Espacial de Alcântara poderia ser expandido ou virar parte de uma rede de infraestrutura de lançamento de foguetes dispersa pelo litoral Norte do país. é esse o tipo de trabalho necessário para operar mísseis balísticos com alcance de 15000-20000km. isso nos daria alcance para atingir praticamente qualquer ponto do globo. o que também nos colocaria em tensão imediata com todas as grandes potências nucleares. poder atacar Wuhan, São Petersburgo, Boston, Londres e Paris não seria tratado casualmente pelo establishment nuclear. o que ganhamos com isso? que custos essas tensões podem impor?

antes de continuar subindo o gradiente, cabe uma observação. há um motivo para nenhuma potência nuclear escolher “apenas” uma mônada ou díade composta de mísseis balísticos terrestres e/ou mísseis lançados por aviação estratégica. instalações fixas como silos de lançamento e bases aéreas são, em essência, enormes alvos monitoráveis da órbita terrestre. arsenais com essas configurações são reféns de uma lógica usar-ou-perder. sua existência não pode ser tomada como dada em uma deflagração nuclear porque esses arsenais são alvos prioritários de ogivas inimigas. isso tem uma implicação imediata: um arsenal nuclear de projeção intercontinental precisa ter uma perna submarina para estabelecer MAD.

no Reino Unido isso é levado ao extremo: apenas o serviço de submarinos da Marinha Real britânica opera armas nucleares no país. na França, a perna submarina da díade nuclear é a que opera as ogivas de alto rendimento. a Força Aérea e Espacial francesa opera apenas mísseis de cruzeiro com ogivas de baixo rendimento e uso tático. jogar esse jogo envolveria ter pelo menos 4 submarinos nucleares de mísseis balísticos em serviço. 4 é o número mágico porque assim é possível manter um ciclo sustentável de operações. a qualquer momento precisamos de um submarino em cada uma das seguintes fases: (i) treinamento, (ii) manutenção leve, (iii) manutenção profunda e (iv) patrulha. o custo esperado é algo na vizinhança de 5-10 PNMVs.

quis enfatizar que existem muitas, muitas escolhas a serem feitas sobre um arsenal nuclear real, mas, a bem da verdade, só há duas regiões dentro desse gradiente em que é coerente se posicionar. uma é como uma potência nuclear regional, que não consegue oferecer um guarda-chuva nuclear para aliados e estados-clientes, mas que também não se preocupa em estabelecer MAD. a outra é como uma potência que simultaneamente tem capacidades intercontinentais & consegue posicionar submarinos nucleares lançadores de mísseis balísticos em regiões remotas do globo. existe um abismo de custo e complexidade entre uma e outra. vou me repetir, mas: o que ganhamos com a capacidade de incinerar Lima e Quito? e por que isso vale o enorme custo envolvido?

Um Desejo Mal Direcionado

hora de fazer concessões. um programa nuclear empregaria dezenas de milhares de profissionais muito bem pagos, altamente qualificados. ele resultaria em geração de propriedade intelectual e formação de habilidades na indústria. isso nos daria mais autonomia estratégica. e, sendo sincero, existe dentro de mim o desejo pelo absurdo. por que não mobilizar a nação em torno de um projeto louco?

consigo conceder que cada bacharel em Engenharia Nuclear pela UFRJ que não está empregado rodando simulações para a ogiva de próxima geração™ ou trabalhando na equipe de manutenção preventiva dos reatores a bordo de submarinos nucleares brasileiros é uma provável má alocação de capital humano. quem não quer ver os benefícios da base industrial que se formaria ao redor disso? os desfiles militares?

mas vamos dar um passo para trás por um momento. que condições, historicamente, levam um estado a ir atrás dessa empreitada de loucos? os EUA desenvolveram armas nucleares como parte de um esforço maior de Guerra Total. a URSS desenvolveu o seu arsenal nuclear no final dos anos 40, como forma de estabelecer dissuasão contra seu rival geopolítico. a China segue o exemplo nos anos 60 e nutre um programa nuclear para dissuadir a URSS. a Índia, que perdeu o breve conflito com a China em 1962, desenvolve o seu arsenal no início dos anos 70. o Paquistão passa duas décadas tentando e consegue suas primeiras ogivas funcionais no começo dos anos 90 para estabelecer paridade com o seu arquirival, a Índia.

não temos alvos para armas nucleares. não temos tensões geopolíticas relevantes: somos protegidos pelas distâncias intercontinentais que nos separam das grandes potências. que tipo de doutrina nuclear escreveríamos? “temos mísseis apontados para Buenos Aires/Lima/Santiago e não temos medo de usá-los”?

a resposta usual é que o alvo seria uma grande potência tentando se apoderar de partes da Amazônia ou de campos de petróleo no nosso litoral. mas a menos que estejamos dispostos a ameaçar evaporar Boston ou Wuhan sem medo de ter São Paulo e Belo Horizonte reduzidas a pó, isso é uma empreitada falida desde o começo. sabe o que realizaria esse desejo, sem 1% das complicações geopolíticas de um arsenal nuclear, a um preço menor e com aplicações militares concretas?

Complexos A2AD

por centenas de anos, antes e depois da Revolução Industrial, a guerra naval foi dominada por uma tecnologia: artilharia naval. tanto um galeão espanhol sob o comando de Alonso de Guzmán em 1588 quanto o encouraçado Musashi da Marinha Imperial Japonesa nos anos 40 e basicamente todo navio militar construído e operado no meio tempo empregavam a mesma tecnologia, a saber: disparar um bloco de metal em trajetória balística (parabólica) contra um alvo no seu campo de visão.

apesar do enorme progresso em métodos de controle de fogo durante o reinado centenário da artilharia naval2, as restrições físicas básicas do problema são incontornáveis. navios estão em movimento! é preciso computar o movimento relativo entre o atirador e o alvo, derivar uma solução e corrigi-la com base no erro de tiros de calibração. depois de confirmada uma solução de fogo, ela precisa ser continuamente atualizada. e esse loop depende de contato visual com o alvo!

Jargão:

Solução de Fogo: o conjunto de parâmetros (direção, distância, velocidade e rumo do alvo, tempo de voo da munição, etc) que precisa ser calculado para que um disparo tenha chance razoável de acertar.

nos anos 50, ambos os lados da Cortina de Ferro se ocupam em absorver as toneladas de materiais e documentos técnicos extraídas da Alemanha durante a ocupação. nesse período, surgem os primeiros mísseis de cruzeiro, quase todos baseados no V-1 alemão. e é a liderança soviética, ciente da assimetria naval com a OTAN e em busca de tecnologias disruptivas que pudessem mitigá-la, que imediatamente vê o potencial do míssil de cruzeiro na missão antinavio. uma burocracia dedicada ao desenvolvimento de mísseis táticos é criada - dentro do escritório que mais tarde viraria o famoso Mikoyan-Gurevich, ou MiG - e vários desenhos são testados nos anos seguintes. o primeiro produto funcional, um MiG-15 subdimensionado com uma seção de radar semiativo no lugar da cabine do piloto, entra em serviço em 1953.

Jargão:

Míssil de cruzeiro: míssil propulsado durante todo o voo, com trajetória controlada em baixa altitude e velocidade tipicamente subsônica ou supersônica baixa.

Míssil balístico: míssil propulsado apenas na fase inicial do voo, que segue trajetória parabólica até o alvo.

ASCM e ASBM: as variantes antinavio de cada um (Anti-Ship Cruise Missile, Anti-Ship Ballistic Missile).

Guiagem por radar semiativo: o míssil se guia pelo reflexo de um sinal de radar emitido por outra plataforma.

Guiagem por radar ativo: o míssil carrega o próprio radar e se guia autonomamente.

Guiagem terminal: guiagem ativada apenas na fase final do voo, após navegação inercial ou por satélite até a área do alvo.

A KS-1 Komet Anti-Ship Missile under the wings of a Tu-4 Bull.
um míssil KS-1 Komet (designação OTAN: Kennel) nas asas de um Tu-4 (designação OTAN: Bull).
A KS-2 Kipper Anti-Ship Missile under the wings of a Tu-16 Badger.
um míssil KS-2 (designação OTAN: Kipper) carregado por um Tu-16 (designação OTAN: Badger).

a história do desenvolvimento de mísseis de cruzeiro antinavio durante a Guerra Fria é longa e interessante, se você for maluco, mas vai precisar ficar para outro dia. de interesse mais imediato para nós é o sistema de aquisição e processamento de informação que permitia à aviação naval soviética detectar, classificar, rastrear e eventualmente danificar formações da Marinha Americana. o mar é grande, enorme. mísseis não voam mais do que algumas centenas de quilômetros e só detectam um alvo a duas ou três dúzias de quilômetros. uma formação de bombardeiros decolando da Península de Kola demoraria 5 horas de voo até cruzar o Estreito da Dinamarca e ter acesso às águas do Atlântico Norte. como garantir o alinhamento dos astros necessário para um ataque bem-sucedido?

tudo começava com a passagem de uma dupla de satélites da constelação RORSAT em órbita baixa3. com os dois passando no mesmo plano orbital em um curto intervalo de tempo, era possível estimar velocidade, posição e direção de movimento de uma formação naval dentro da área vasculhada. um time de analistas na sede da Frota do Norte, em Murmansk, receberia a informação bruta dos satélites, cruzaria com mensurações anteriores e inteligência, e produziria um artefato finalizado com uma forma do tipo: Contato tamanho estimado S, coordenadas X, Y, histórico de posição recente: [x_t, y_t; x_{t+1}, y_{t+1}, ...], classificação provável: comboio logístico | Carrier Strike Group | ... . se algum contato fosse classificado como sendo uma formação de interesse (por exemplo, um Carrier Strike Group da Marinha Americana), essa informação seria repassada às patrulhas marítimas.

Jargão:

Inteligência de Sinais, ou SIGINT: informação derivada da interceptação de emissões eletromagnéticas. subdivide-se em ELINT (emissões de radares e sensores) e COMINT (comunicações).

mas os alvos não param de se mover! entre a passagem dos satélites, a escolha de um candidato pelos analistas e a chegada dessa informação ao comandante de patrulha, algo entre 20 e 120 minutos teria se passado e a formação já teria se deslocado 15-100km. a área de buscas sugerida pelos satélites precisaria ser atualizada antes de qualquer tentativa de ataque acontecer. as patrulhas, normalmente conduzidas por Tu-95RTs, tentariam primeiro se aproveitar do fato de que sinais de radar são detectáveis a uma distância muito maior do que aquela em que o próprio emissor consegue detectar um contato - pelo menos o dobro! SIGINT seria a primeira opção para reduzir a incerteza sobre a posição da formação dentro da imensidão do Atlântico Norte.

An E-2C Hawkeye, 80s.
um E-2C Hawkeye da Marinha Americana. radares em solo têm o alcance limitado pela curvatura da Terra; um radar que voa não só pode ser posicionado com mais flexibilidade, como tem um alcance efetivo muito maior.

detectar os sinais característicos de algum avião de patrulha ajuda a delimitar melhor a área de buscas porque, na doutrina americana, eles acompanham a formação principal em pares. a área de busca insinuada pela presença desses aviões é suficientemente pequena para ser varrida pelo radar de busca de superfície de um avião de patrulha ou bombardeiro estratégico. isso sim, finalmente, daria a informação granular necessária para disparar os mísseis antinavio. mas nada é de graça: os aviões seriam imediatamente contradetectados quando ligassem os seus radares!

Chainsaw tactics of the USN.
diagrama esquematizando a proteção do porta-aviões.
A Tu-95 plane, with the Big Bulge Ground Search Radar's dome visible.
um Tu-95RT, a variante de patrulha marítima, com a antena do Radar de Busca de Superfície "Big Bulge" visível sob a fuselagem.

Jargão:

Cadeia de Ataque, ou Killchain: sequência de etapas entre a detecção de um alvo e o dano causado a ele.

Negação de Acesso, ou Anti-Access (A2): impedir a entrada de uma força adversária em um teatro de operações.

Negação de Presença, ou Area Denial (AD): restringir a liberdade de movimento de uma força adversária dentro de um teatro de operações.

Complexo A2AD: sistema integrado de sensores, centros de decisão, plataformas e munições sustentando uma cadeia de ataque para negação de acesso e presença.

uma variedade de sensores precisa ter seus resultados consolidados, cruzados, analisados e cascateados por diferentes níveis hierárquicos, até culminarem em uma tentativa de ataque. essas várias partes móveis, algumas mais e outras menos autônomas, são compostas para formar um Complexo de Negação de Acesso e Presença (Anti-Access/Area Denial, A2AD). os esforços da Marinha Soviética para negar o Atlântico Norte constituem o primeiro exemplo moderno de um Complexo A2AD, mas foram pensados à luz das limitações técnicas da indústria aeroespacial soviética dos anos 70 e 80. existem exemplos contemporâneos e eles têm muito a dizer sobre o que seria um complexo A2AD para o Brasil do século XXI.

O caso chinês

foi no início dos anos 70 que as guerras do Yom Kippur e do Vietnã demonstraram a viabilidade do helicóptero de ataque para interdição da retaguarda e do míssil guiado antitanque como uma ferramenta contra massas de blindados. esses dois insights mudam fundamentalmente o cálculo da liderança da OTAN: uma guerra quente na Europa Central contra o Pacto de Varsóvia poderia ser vencida por meios convencionais! em 76 começa a gestão do General Donn Starry no Comando de Treinamento e Doutrina do Exército Americano e o seu mandato é dedicado à construção de uma nova doutrina coerente com essa constatação. em 1981 é publicada a nova edição do manual de Operações, o FM 100-5, e nasce a doutrina de AirLand Battle.

ao invés de pensar o conflito com o Pacto de Varsóvia como uma questão de gerenciamento da integridade do front e prevenção de breakthroughs, à maneira da doutrina de Defesa Ativa anterior, o conceito de AirLand Battle sugere uma visão integrada do front, em que manobra rápida de forças terrestres ocorre simultaneamente com interdição da retaguarda através de aviação, artilharia e forças especiais - visando um campo de batalha unificado Terra-e-Ar.

quando a Coalizão das Nações Unidas invade o Iraque em 1991, coloca em prática 15 anos de evolução técnica e doutrinária no Ocidente. as forças iraquianas, somando ~250k soldados, são incapazes de lidar com a campanha aérea que prepara o terreno para a invasão terrestre. centros de comunicações, instalações de radares, aglomerações de tropas, depósitos de munição e combustível são consistentemente atacados pela coalizão, do ar. o exército iraquiano é privado de manobra e comunicações, e perde a capacidade de operar como uma força coerente. a invasão terrestre que segue é um triunfo: a coalizão sofre menos de 500 mortos e atinge uma inquestionável vitória em menos de uma semana. a Primeira Guerra do Golfo é provavelmente o maior sucesso militar do século XX.

a alguns fusos horários de distância, a liderança do Exército da Libertação Popular (People’s Liberation Army, PLA a partir de agora) tem um duro choque de realidade. a bem da verdade, as salas de reunião em Zhongnanhai não viam boas notícias há anos. a guerra com o Vietnã entre 1979 e 1988 expôs falhas profundas em todos os níveis. o que começou como uma “palmada”, nas palavras de Deng Xiaoping, virou um sangrento conflito de fronteira com dezenas de milhares de baixas.

em muitos sentidos, o PLA de 1989 ainda era a força de guerrilha que tinha unificado o país 40 anos antes. uma organização em que a autoridade era centrada no capitão e no oficial político da Companhia. figuras que conheciam todos os seus subordinados, conseguiam gerenciar objetivos localizados sem muito input do Partido e não tinham treinamento para lidar com o campo de batalha abstrato onde um comandante de Batalhão, Regimento ou Divisão opera. embora essas características tenham sido parte integral da extremamente bem-sucedida campanha de guerrilha campesina, não são compatíveis com uma força armada profissional que precisa conduzir operações de larga escala como, por exemplo, um desembarque anfíbio contestado nas praias de Taiwan.

a experiência de Tiananmen em 1989 também não tinha sido positiva. mover tropas de todas as regiões do país para a capital deixou claro para a liderança que o PLA ainda operava como várias forças de defesa territorial dispersas pelo subcontinente. havia surpreendentemente pouca continuidade institucional entre formações localizadas em diferentes partes do país: procedimentos não-padronizados, equipamento de comunicação operado de maneiras incompatíveis, incapacidade de coordenar o movimento de grandes quantidades de pessoas e material por longas distâncias.

como o General Norman Schwarzkopf deixou claro na sua famosa coletiva de imprensa anunciando a vitória na Primeira Guerra do Golfo: a coalizão tinha todos os meios de tomar Bagdá e decapitar o governo. isso não foi feito porque a Resolução 678 do Conselho de Segurança da ONU apenas autorizava a expulsão das tropas iraquianas do Kuwait “por quaisquer meios necessários”. Hussein continuaria no poder até 2003. independentemente do destino da ditadura iraquiana e do direito internacional, a liderança do PLA - que é o braço armado do Partido Comunista da China, não as forças armadas da República Popular - entendeu muito bem as implicações da campanha da coalizão: se o eleitorado americano realmente quisesse, não seria possível preservar o regime.

em 1993 é publicada a nova doutrina, enfatizando capacidades “Contra Intervenção” (反介入, fǎn jièrù). note que a China de 1993 já tinha uma tríade nuclear! para voltar ao meu ponto inicial: armas nucleares não são um atestado mágico e incondicional de independência. a liderança política e militar chinesa avalia que um Complexo A2AD convencional é de maior valor dissuasório do que a sua tríade nuclear!

a guerra informatizada e centrada em redes praticada pelas forças armadas americanas é resultado de um sistema de sistemas e pode ser contrabalanceada por uma campanha de desmonte dos encaixes entre suas partes móveis. é o que a liderança do PLA chama de “guerra de desarticulação sistêmica” (体系破击战, tǐxì pòjī zhàn). esse não é um insight distintamente chinês. de fato, há uma clara continuidade com o conceito desenvolvido pelo General Starry nos anos 70: sucesso no front é decorrente da capacidade de degradar a “arquitetura operacional” do inimigo. o assunto é fascinante, mas se a história do míssil de cruzeiro antinavio já era longa demais para ser abordada em qualquer grau de detalhe neste espaço, a reforma de pensamento militar chinesa nos últimos 30 anos - que vai muito além da construção do Complexo A2AD no Pacífico Ocidental - é material para teses de doutorado. afinal, como a liderança do PLA planeja tornar a Primeira - e com sorte, a Segunda - Cadeia de Ilhas uma área inabitável para a Marinha Americana?

Jargão:

Contato: detecção individual produzida por um sensor.

Pista, ou Track: estimativa mantida pelo sistema sobre a posição e o movimento de um objeto, construída a partir da associação de múltiplos contatos.

como descoberto na Guerra Fria, satélites são plataformas excelentes para vigilância de áreas amplas. o primeiro contato com o alvo, no Complexo A2AD chinês, vem com a passagem de um satélite da constelação Yaogan (遥感). com um período orbital de ~90 minutos e organizada em trios, a constelação oferece inteligência de sinais, capacidades SAR e eletro-óticas por todo o Pacífico Ocidental. um Carrier Strike Group americano operando na área pode ser acompanhado com atualizações de sua posição várias vezes ao dia, sem as complexidades da triagem e análise manual de dados que afetavam a Frota do Norte nos anos 70 e 80. a custódia do alvo pode ser mantida aproximadamente em tempo real através da rede de radar além-do-horizonte (Over the Horizon Radar, ou OTH). na próxima seção discutiremos em mais detalhes o funcionamento e limitações de radares OTH, mas por ora basta pontuar que não é necessariamente claro em qual ponto da superfície terrestre um contato está localizado. então, por mais que um sistema OTH consiga em princípio manter uma pista em tempo real de uma formação a milhares de quilômetros de distância, essa informação precisa ser complementada por sensores a bordo de plataformas como drones ou aviões de patrulha marítima para que uma solução de fogo possa ser calculada e mísseis, disparados.

Approximate coverage areas for the Chinese OTH radar system.
envelope aproximado de cobertura do sistema chinês de Radar OTH.

o complexo A2AD chinês - tal qual o soviético e qualquer outro - depende em larga medida de mísseis de cruzeiro. o custo e complexidade técnica relativamente baixos, bem como as dimensões menores, tornam esse tipo de munição a escolha óbvia para compor o grosso de qualquer força de ataque marítimo. assim como a Marinha Soviética, a Marinha do Exército da Libertação Popular (PLAN) não poupou esforços em desenvolver sofisticados ASCMs. dito isso, a escola chinesa de pensamento cavou um nicho para o míssil balístico antinavio (ASBM). ao contrário de mísseis de cruzeiro - que, bem, fazem um voo de cruzeiro - mísseis balísticos seguem uma trajetória parabólica e, com a ajuda da gravidade, atingem velocidades terminais extremamente elevadas. quando equipados com câmeras infravermelho e radares de busca de superfície, é possível adicionar capacidades de guiagem terminal: ao invés de mirar em um ponto pré-definido na superfície da Terra, é possível alterar a trajetória para atingir alvos móveis como porta-aviões.

as ogivas maiores e a velocidade terminal aumentam sensivelmente a letalidade de um impacto de ASBM vis-à-vis um ASCM como o YJ-12 ou o YJ-18. são essas as características que tornam esses mísseis alvos de imensa especulação e hype na mídia não-especializada. “matador de porta-aviões” é a expressão comum usada pelos grandes veículos para se referir a esses sistemas. a troca é que a trajetória balística é extremamente previsível e um alvo grande como um foguete com alcance de milhares de quilômetros é facilmente detectável a longas distâncias. por esses motivos, interceptação de mísseis balísticos está dentro das capacidades de defesa de um Carrier Strike Group. não existem wunderwaffe.

A PLANAF H-6 carrying YJ-18 anti-ship cruise missiles.
um bombardeiro naval H-6K da Aviação Naval da Marinha do Exército da Libertação Popular (PLANAF) com um míssil de cruzeiro antinavio YJ-18 sob as asas. o H-6K é um clone chinês modernizado do Tu-16 Badger soviético.
A PLANAF H-6 carrying YJ-21 anti-ship ballistic missiles.
um bombardeiro naval H-6K com um míssil aerobalístico antinavio YJ-21.
DF-21D anti-ship ballistic missile TELs during a parade in Tiananmen Square.
lançadores móveis (Transporter Erector Launchers, TELs) do míssil balístico antinavio DF-21D desfilando na Praça Tiananmen, 2015. alcance de ~1500km.
A column of DF-26 intermediate-range ballistic missile TELs.
coluna de TELs do DF-26, míssil balístico de alcance intermediário (~4000km) com variante dedicada à missão antinavio.

Austrália

a primeira metade da Guerra Fria foi um período conturbado para a sociedade australiana. depois de uma longa e dolorosa participação na Segunda Guerra Mundial, a postura estratégica do governo australiano passou a ser guiada pela ideia de Forward Defense, em que forças armadas australianas eram desenhadas para operações expedicionárias pela Oceania, Sudeste Asiático e onde mais Londres e Washington precisassem de tropas. a Austrália foi o segundo país a entrar na Coalizão da ONU durante a Guerra da Coreia, manteve operações de estabilização na Malásia e enviou um contingente de quase uma Divisão para o Vietnã durante a Segunda Guerra da Indochina.

Defesa Ativa, Saturação e Combate Naval na Era do Míssil

na manhã de 4 de maio de 1982, um par de Super Étendards da Marinha Argentina decolou da base naval em Río Grande, Tierra del Fuego. algumas horas antes, um avião de patrulha marítima P-2 Neptune argentino havia detectado o que pareciam ser dois destróieres na Área de Exclusão Total decretada pelo governo britânico ao redor das Ilhas Falkland. guiados em direção aos contatos de radar pela tripulação do P-2, o par se esconde dos radares britânicos mantendo baixa altitude, usando a curvatura da Terra para se esquivar dos sinais dos radares da Força Tarefa 317. depois de algumas tentativas sem sucesso de localizar a formação, os contatos aparecem nos radares dos Étendards argentinos pouco antes das 11h da manhã. as coordenadas são inseridas no sistema de controle dos mísseis de cruzeiro antinavio Exocet importados da França e dois mísseis são disparados.

era uma manhã calma a bordo do destróier Tipo 42 HMS Sheffield: os oficiais estavam bebendo chá. o navio conduzia tarefas de rotina com outros dois da mesma classe, HMS Coventry e HMS Glasgow. o trio formava uma linha de piquete de defesa aérea, posicionada a algumas dezenas de quilômetros a oeste do grosso das forças inglesas operando na área. o entendimento na Marinha Real era que a aviação naval argentina não tinha alcance para tocar a formação, e o afundamento do cruzador ARA General Belgrano por um submarino britânico dois dias antes havia colocado os submarinos argentinos no centro das atenções.

nenhum dos navios no piquete britânico estava em estado de alerta quando emissões de radares de busca de superfície foram detectadas pela suite de inteligência de sinais do HMS Glasgow. o porta-aviões HMS Invincible, onde residia o coordenador de defesa aérea da formação (Anti-Air Warfare Coordinator, ou AAWC), também detectou um par de radares, e dois Sea Harriers foram despachados para averiguar. nada é encontrado e o AAWC decreta alarme falso. o ataque é percebido apenas quando a fumaça dos mísseis é avistada pelos vigias a bordo do Glasgow. um deles tem mau funcionamento e cai na água, o outro atinge o Sheffield. a ogiva falha e não detona, mas o impacto inicia um incêndio e desabilita o sistema principal de bombeamento de água. poucas horas depois, são dadas as ordens de abandonar o navio - que afunda lentamente ao longo dos dias seguintes.

Jargão:

Cebola de Sobrevivência, ou Survivability Onion: modelo em camadas das condições sucessivas necessárias para que uma plataforma seja destruída. de fora para dentro: não ser detectado, não ser adquirido como alvo, não ser atingido, não ser penetrado, não ser catastroficamente danificado.

durante o reinado da artilharia naval, navios eram desenhados de maneira a preferencialmente evitar, mas necessariamente tolerar dano. eram aplicados esquemas de camuflagem para dificultar a estimativa de rumo e distância necessária para o cálculo de uma solução de fogo. tripulações treinavam mudanças abruptas de direção e velocidade, com a intenção de evadir disparos sucessivos caso uma solução de fogo inimiga se provasse correta. blindagem não só protegia o exterior dos navios, como também separava os compartimentos vitais.

Two periscope views of the same merchant vessel on the same course: on the left painted in dazzle camouflage, on the right painted plain grey.
duas vistas de periscópio do mesmo navio mercante, no mesmo rumo: à esquerda com pintura dazzle, à direita pintado de cinza.

um projétil de artilharia disparado pelos grandes encouraçados da Segunda Guerra Mundial era um penetrador, cuja capacidade de causar dano dependia em larga medida da sua energia cinética4. um projétil de 1 tonelada impactando a qualquer coisa entre 300 e 700 m/s carregaria algo na faixa de 50-250MJ de energia. explosivos modernos, com densidade energética orbitando os ~5 MJ/kg, podem replicar o rendimento de um projétil pesado com uma fração do peso. um ASCM de 500kg a 300m/s carrega apenas ~22MJ de energia cinética no impacto, mas uma pequena ogiva de 100kg, descontando invólucro e espoleta, pode liberar algo na faixa de 250-350MJ de energia - com o agravante de que isso ocorre no interior do navio, após a penetração do míssil.

o desenvolvimento de radares de busca de superfície acurados, combinado com aviação naval carregando mais munições, mais sofisticadas e de maior rendimento, por distâncias mais longas, mudou fundamentalmente o papel, missão e, por consequência, desenho de combatentes de superfície. a probabilidade relativamente baixa de impacto de fogo de artilharia naval permitia o foco em defesas passivas: dificultar o cálculo de uma solução de fogo e desenhar o navio de forma que um impacto cause o menor dano possível. em um mundo onde ASCMs são a munição padrão, é necessário praticar defesa ativa e inutilizar ou destruir os mísseis antes que eles impactem o navio.

Jargão:

Hard Kill: destruição física do míssil em voo, normalmente por outro míssil, mas possivelmente por canhão ou LASER.

Soft Kill: neutralização do míssil sem destruí-lo, degradando ou enganando sua guiagem: jamming, chaff, flares, iscas.

Defesa de Área, ou Area Defense: defesa contra ameaças a longa distância, protegendo uma área ou formação naval por meio de mísseis de médio e longo alcance.

Defesa Pontual, ou Point Defense: defesa de curto alcance destinada a proteger diretamente um navio ou instalação contra ameaças que penetraram as camadas externas de defesa.

CIWS (Close-In Weapon System): sistema de defesa pontual de curtíssimo alcance, geralmente baseado em canhões automáticos de alta cadência.

desenhos como os destróieres Classe Arleigh Burke e cruzadores Classe Ticonderoga na Marinha Americana, ou os destróieres Classe Kashin e Classe Sovremenny na Marinha Soviética são frutos desse salto tecnológico. além de serem equipados com uma variedade de mísseis para defesa de área e canhões para defesa pontual, também são equipados com suites de coleta de inteligência de sinais, radares para monitoramento do espaço aéreo e equipamento de guerra eletrônica. apesar do que o afundamento do Sheffield pode nos sugerir, a probabilidade que um míssil individual tem de penetrar todas as sucessivas camadas de defesa de um combatente de superfície moderno operado por uma tripulação ciente do ataque é relativamente pequena5.

An Arleigh Burke class destroyer launching an SM-2 missile at sea, with the smoke trail of a previous launch beside it.
o USS Curtis Wilbur, destróier classe Arleigh Burke, dispara um Standard Missile 2 (SM-2). a família Standard Missile contém as principais munições de defesa aérea na Marinha Americana.

ponha os sapatos do AAWC por um momento. um potencial míssil primeiro surge como um contato de radar. esse contato precisa ser classificado baseado em propriedades como tamanho, velocidade, altitude, rumo, etc. uma classificação informa o que deve ser feito com o alvo, mas essa decisão tem nuances. mísseis de defesa aérea são desenhados com perfis de alvos específicos: ameaças balísticas em fase terminal ou em fase de voo, autodefesa terminal contra ASCMs, defesa de área de longo alcance, etc. e apesar de otimizados para cenários específicos, também há algum grau de substituibilidade e não é imediatamente óbvio qual munição alocar para qual ameaça. é possível, por exemplo, que seja um melhor uso de munição deixar um míssil se aproximar e tentar uma soft kill de alta probabilidade! embora navios modernos sejam equipados com softwares de gestão de combate que automatizam essa tarefa em algum nível, o humano-no-loop é indispensável. esse ciclo é conhecido no jargão como Observe, Orient, Decide, Act Loop, ou OODA Loop.

como a capacidade da formação de se defender é limitada, em última instância, pela quantidade de munições a bordo, uma maneira garantida de penetrar uma rede de defesa aérea é via saturação. atirando um número suficientemente grande de mísseis, é possível exaurir a capacidade de defesa ativa de qualquer formação. penetração por força bruta! e qual é a menor quantidade de força que configura força bruta? como desenhar munições e táticas de ataque de forma que um volume relativamente pequeno de mísseis atinja saturação? existem diferentes escolas de pensamento sobre como penetrar a defesa integrada de uma formação naval e o que une todas é serem conjuntos de escolhas visando pressionar o OODA Loop do alvo.

a resposta soviética para o problema foi desenhar enormes mísseis supersônicos de grande alcance. apesar de grandes e facilmente detectados, as altíssimas velocidades reduzem o número possível de tentativas de interceptação e o tempo entre elas. no Ocidente, a preferência é por pequenos mísseis subsônicos que voam em baixas altitudes, atrasando a detecção da munição até uma certa proximidade com o alvo e drasticamente reduzindo o tempo que a tripulação do alvo tem para reagir - como vimos no afundamento do Sheffield. a China pratica uma abordagem híbrida, combinando ASCMs - alguns com DNA ocidental, como o YJ-12, outros com herança soviética, como o YJ-18 - com ASBMs.

Minha Omissão

até agora, falamos exclusivamente da dimensão naval de complexos A2AD, mas o espaço aéreo é um domínio de extrema importância! Sistemas Integrados de Defesa Aérea (Integrated Air Defense Systems ou IADS, no jargão) fazem parte da conversa sobre Complexos A2AD, mas sinto que já me alonguei demais e precisamos ir para os finalmentes. aqui vai o mínimo necessário sobre IADS.

Jargão:

Integrated Air Defense System, ou IADS: sistema integrado de sensores, centros de decisão, plataformas e munições empregado na defesa de um espaço aéreo.

Supressão/ Destruição de Defesas Aéreas Inimigas, ou SEAD/DEAD: conjunto de missões com o objetivo de suprimir (soft kill) ou destruir (hard kill) partes de um IADS.

defesa aérea e A2AD são o mesmo problema visto de lados opostos. assim como um atacante precisa saturar a capacidade de defesa de uma formação naval, um atacante contra um IADS tenta negar os sensores que sustentam a aquisição de alvos e a infraestrutura que permite a entrega de munições para a defesa. nodos de comunicação, antenas de radar e bases aéreas são alvos prioritários em uma campanha de SEAD/DEAD e, portanto, instalações que a defesa precisa conseguir salvaguardar. isso é atingido da mesma forma que uma formação naval se defende: preferencialmente impedindo veículos de entrega do atacante de se aproximar o suficiente e, se necessário, destruindo ou inutilizando as munições.

Um Complexo A2AD Brasileiro

demos uma volta enorme, mas chegamos aqui. que aparência teria um complexo A2AD brasileiro se nosso objetivo imediato fosse, por exemplo, a capacidade de negar o Atlântico Sul a qualquer potência estrangeira com intenções adversariais? como já vimos, tudo começa com uma constelação de satélites com capacidades SAR e eletro-óticas para vigilância de área ampla. a constelação Carcará e as outras capacidades detalhadas na Portaria GM-MD 4.556 são um excelente ponto de partida. sem nenhum design novo e com modestos aumentos no ritmo de lançamento de novos satélites, poderíamos manter cobertura persistente do Atlântico Sul a um custo relativamente baixo.

operar uma rede de radares OTH teria mais complicações. a 4556 já dispõe sobre a coleta de dados de propagação ionosférica, que é um pré-requisito para operação segura de constelações de satélite, mas nada próximo do necessário. um complexo OTH precisaria de uma ampla rede de estações por todo o território nacional e infraestrutura de processamento distribuída. sem falar das antenas de radar em si, que precisariam ser desenhadas do zero. essa é talvez a parte mais especulativa e incerta de um complexo A2AD brasileiro, mas está ao alcance do INPE - e haja concurso para fazer isso acontecer.

para manutenção de patrulha marítima e AWACS, temos uma solução madura no E-99/P-99/R-99 da Embraer e bastaria aumentar a frota. para um ASCM inicial, temos o MANSUP produzido pela Siatt, que é basicamente um Exocet feito em São Paulo. basta comprar mais unidades e trabalhar numa variante de lançamento aéreo. um ASBM nacional seria uma empreitada mais complexa. vamos quebrar isso em partes:

Componente Ponto de partida brasileiro
Propulsão de foguetes de grande porte Competência nacional existente
Navegação inercial Competência existente
Trajetória balística de longo alcance Novo sistema
Veículo de reentrada Desenvolvimento de grande porte
Componente de guiagem terminal Desenvolvimento de grande porte

apesar de especulativo e caro, acredito que esse desenvolvimento esteja ao nosso alcance. se o Irã e a Turquia conseguem produzir ASBMs funcionais, existem autistas o suficiente em São José dos Campos para dar conta do problema. garanto que esse tipo de munição se tornaria um hit de exportação.

um Complexo A2AD não é apenas as suas partes, mas também a arquitetura de dados que lhes permite operar como um todo coeso. precisaríamos treinar mais oficiais, reter mais graduados do ITA e IME nas forças armadas ao invés de enviá-los para a Faria Lima… também precisaríamos construir instalações de fusão de dados e praticar consolidar dados resultantes de vários tipos de sensores em um quadro unificado, claro. nada disso é fácil ou barato, mas muitos produtos de exportação interessantes seriam desenhados no processo, expertise transferível seria criada e, se você quiser mesmo um programa nuclear, levaria ao cumprimento de vários dos seus pré-requisitos técnico-industriais.

já pode começar a escrever para o seu deputado!

  1. a cultura militar russa acabou, por óbvios motivos históricos, semeando as culturas militares de países tomados por revoluções comunistas. na tradição russa (soviética?), há uma preferência por compartimentalização. o primeiro passo para resolver um problema, dentro de uma economia planificada, é criar uma organização/burocracia dedicada. note que um sistema composto de várias hierarquias com relativamente poucas camadas/lideranças internas é mais legível que um sistema composto por poucas hierarquias mais profundas, algo de grande valor para ditaduras. não surpreende, então, que, em forças armadas com herança russa, a tarefa de gerenciar o método primário de ataque nuclear seja segregada: a Força de Foguetes Estratégicos da URSS, a Força de Foguetes do Exército da Libertação Popular na China e a Força Estratégica do Exército Popular da Coreia. no Ocidente a preferência é por estruturar formações dentro dos serviços já existentes. na Guerra Fria, a Força Aérea Americana mantinha o Comando Aéreo Estratégico; a Força Aérea e Espacial da França mantém o Comando de Forças Aéreas Estratégicas. ↩

  2. uma bateria de artilharia, tradicionalmente, atira primeiro em pequeno volume para que um observador de fogo consiga estimar a distância entre o alvo e o local de chegada das munições. essa informação é usada para refinar a solução de fogo. esse processo é repetido até que esse erro seja suficientemente pequeno. quando confirmada a solução de fogo, a bateria atira com intenção de causar dano. você já deve ter ouvido a expressão “fire for effect” em filmes ou outras mídias! o problema de fazer os cálculos balísticos necessários para acertar alvos móveis no mar motivou vários desenvolvimentos práticos em computação e processamento de sinais. no século XIX, todas as marinhas europeias empregavam vários proto-computadores analógicos e ferramentas óticas de telemetria para ajudar tripulações a estimar distâncias de alvos. ↩

  3. esses satélites precisavam voar em órbita baixa porque a Equação de Radar é inescapável e a força do sinal cai com a quarta potência da distância em relação ao alvo. porém, voando a apenas ~280km do solo, não seria possível adicionar a quantidade necessária de painéis solares para operar o radar: a área de contato seria tão grande que o atrito com a rarefeita atmosfera encurtaria demais o tempo em órbita. a solução? reatores nucleares a bordo. ↩

  4. energia entregue a um projétil é a força multiplicada pelo trajeto percorrido dentro do cano. supondo força constante ao longo do cano, pela equação de Torricelli temos $v^2 = 2ad$, então $d = \frac{v^2}{2a}$. portanto:

    \[E_c = F d = ma \cdot \frac{v^2}{2a} = \frac{1}{2} m v^2\]

    note que a energia cresce com o quadrado da velocidade, mas apenas linearmente com a massa. dobrar a velocidade de saída do projétil quadruplica a energia entregue ao alvo, enquanto dobrar o peso do projétil apenas dobra. ↩

  5. várias simulações e estimativas interessantes podem ser encontradas nessa tese de doutorado: Using Kill-Chain Analysis to Develop Surface Ship CONOPs to Defend Against Anti-Ship Cruise Missiles ↩